segunda-feira, 11 de maio de 2026

O rádio-relógio




Ontem Jordana perdeu a vida. Matou-se. O enterro aconteceu hoje cedo. Foi uma cerimônia regada a surpresas, incompreensões daqueles que ali estavam. Quase todos vestidos de preto, inclusive eu. Na volta para casa, percebi uma árvore frutífera, dois tucanos alimentando-se. Pássaros diversos rodopiavam em torno da arvorezinha, como brincando, encantados com a natureza que resiste, eles sobrevoaram o meu carro, seguiram em frente, como que dizendo que eu deveria continuar meu trajeto. O céu não estava tão poluído, estava azulzinho, poucas nuvens flutuando na vastidão. Eu, emocionado, ri. Um riso descontraído, puro, como quando eu faria outrora, pequeno. Um menino na calçada notara minha espontaneidade e riu também, como se houvesse uma conexão entre nós, como se ele fosse a criança que fui há anos, como se minha alma projetasse aquela criança que Cristo disse que deveríamos seguir o exemplo. 


O dia findava-se, um crepúsculo pincelado com cores vivas, um vermelho- alaranjado displicente. Era como o cumprimento da noite que já chegava para cumprir seu destino. Mesmo assim, quase ninguém deu atenção. Eu também não daria, caso fosse um dia rotineiro, qualquer outro dia.

Já em casa, depois do banho: uma brisa leve fez carinho no meu rosto, enquanto tomava uma xícara de café fresco, debruçado no parapeito da varanda. Estrelas brilharam ainda mais, queriam terminar aquela obra-prima descrita anteriormente, as cores brincavam no quadro, mãos talentosas refazendo o mundo todo.

Cansado, dormi. Sonhei. Havia anos que não sonhava. Sorri dormindo, era um sorriso despretensioso, leve. Amanhã tenho que despertar cedinho. Deixei o rádio-relógio programado, ele foi um presente de Jornada, quando visitou um monge, amigo dela, em Ohio, ano retrasado.