quinta-feira, 20 de julho de 2017

Poeta é o sertão

As moscas enfurecidas pelo calor escaldante
atropelam os restos de comida,
Ainda agonizantes nos pratos, em cima da pia
O cará, a carne fritada [de bode] e o líquido alcoólico
                                            [da cachaça
Reviram o estômago, inchado... constipação
O suor escorrendo na cútis
Do lado de fora, crescem milagrosamente:
Mandacarus,
Aroeiras,
Mulungus,
Caatingueiras,
Baraúnas,
Emburanas...

O chão de terra batida que ecoa no meu peito
Chamando-me poeta
Poeta é o sertão, 
Este lugar de rostos sofridos
Que escondem as pancadas do sol debaixo do sorriso
                                         [incandescente
Que desaparece na seriedade da plantação do feijão 
                                              [de corda

O cinza-amarronzado da vegetação de Campina Grande 
                                                 [berra
                    [em meus ouvidos como obra de Munch
O açude ressoa um silêncio bem agudinho
Destrutivo
Cortando minh'alma como cutelo na carne do pequeno 
                                            [bode magro
                  [abatido para satisfazer outras fomes
O calango, dos poucos sobreviventes,
Flutua sobre os rochedos de um sítio existente, 
                                           [no passado.

Nas paredes, das casinhas, os santos que abençoam 
                                            [as ilusões
"Santa Luzia interceda por nós, Nsa. Sra. Rainha do Céu,                                                  [interceda por nós"
É o Pajeú, berço da esperança cabocla, santo dos 
                                             [autóctones
Lenda para os estrangeiros.

Minha passagem foi transmutação, um recomeço
Aqui, a história é o presente de um caboclo encarnado
Em corpo atemporal, que adentra um mundo paralelo
Chamado sertão.



O Poeta

O poeta canta sonhos em versos
Sua face afaga umbuzeiros
Esta cantoria inflama as chagas do querer
O terço à mão para o refúgio noturno
O véu da senhorinha, ajoelhada...
Santuário

Ah! o poeta solitário refaz o caminho de Cristo
Seu martírio...
Viola em riste, aponta para o infinito
O poeta é tempo,
É vento,
É sombra,
É água em dia de sol quente.

Boina francesa lilás

Ela estava sentada, olhando no espelho de seu toucador vitoriano, de uma cor verde, gasta pelo tempo, herança de sua mãe. "Como os anos passaram tão rapidamente? Minhas rugas...", uma lágrima escorreu, borrando a maquiagem pesada que Vera, com tanto cuidado e demora, construiu para esconder seu rosto marcado pelo tempo. Morou por muitos anos naquele pequeno apartamento. Nunca trocou o papel de parede verde-azulado e marrom rosado, organizados verticalmente, com botões de rosas brancas que mais pareciam mortas, perderam a beleza de décadas atrás e deixavam a decoração do papel ainda mais decrépita. Colocou a boina francesa lilás, queria combinar com a cor dos cabelos mal tingidos de preto. Cachecol de cores vivas, o vermelho sangue destacando-se das demais. Olhou novamente para o espelho, de soslaio. Respirou fundo. Fez um gesto de desagrado. Fora até o fogão, acendeu um Carlton com o único palito de fósforo ainda não queimado. Abriu a janela. Era noite muito fria, porém o movimento era intenso, lá embaixo. "Como eles conseguem?", pensou.  "Parecem tão felizes", sussurrou. Fez-se silêncio em sua cabeça, um vácuo, por alguns segundos. Raramente o silêncio lhe fazia companhia, único amigo naqueles 70 anos.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Sábado de Outono

Na vida acontecem coisas muito estranhas, vemos situações que mais parecem um quebra cabeças sem solução, como o que ocorreu sábado passado, quando aguardava minha namorada, sentado em um dos bancos de cimento da praça Oswaldo Cruz, bem de frente para o Shopping Páteo Paulista. Uma manhã fria, apesar do sol reluzir toda a sua glória de estrela e sustentáculo do nosso sistema solar. Aquele movimento habitual de pessoas diferentes com o mesmo ideal: continuar vivas, ao menos a maioria. Assentou-se no banco à minha frente, um rapaz alto, cabelos sedosos, como de comercial de shampoo nos intervalos de novela do canal 7. Suas vestes estavam manchadas de - ao meu ver leigo - sangue. Muito sangue. Sua roupa era escura, mas a camiseta de algodão branco denunciava aquela cor enrubescida. Ele abriu a mochila, pegou lenços, muitos lenços e os encharcara, reduzindo aquele exagero rubi espalhado pelas roupas, como tinta atirada de qualquer forma num quadro, por algum pintor fracassado. Retirou o excesso. Mas percebeu que, mesmo assim, não conseguira disfarçar aquela alegoria carnavalesca, que chama a atenção do público nas arquibancadas do Anhembi. Abriu novamente a mochila: uma blusa foi retirada dela. O rapaz - rapidamente - enrolara numa sacola as roupas denunciantes de alguma ação de faroeste estadunidense. Uma bermuda já por baixo da calça e a blusa de ginástica, que retirou da bolsa, transformaram-no em atléta de maratona. As roupas incriminatórias, enroladas em saco preto foram arremessadas na lata de lixo. Ele colocou novamente a mochila nos ombros e correu sorrateiro para a Avenida Paulista. Depois de 30 minutos de atraso, Daniela chegou e pudemos curtir o nosso sábado outonal.

Rua Santa Efigênia

Naquele sábado eu estava decidido a sair, era hora de trocar a placa-mãe do meu velho notebook, era ruinzinho, coitado, mas me deu muitas alegrias, muitos poemas criamos juntos, só nós dois. Resolvi ir até a Santa Efigênia, lá no centro, uma viagem longa pra quem é da periferia. Gosto de andar naquelas bandas da cidade, muitos prédios antigos, cheios de histórias pra contar. Vi uma movimentação grande de pessoas, quando passando pela Avenida Rio Branco. Muitos viaturas policiais. Jornalistas. Veículos de várias emissoras de tv, com suas antenas erguidas, quase em sinal de louvor, apontadas para o firmamento. Perguntei o que estava acontecendo a um senhor que lá estava, olhando para o último dos quatro andares do edifício. "Não sei", disse ele, hipnotizado. Parecia uma procissão da festa de Bom Jesus dos Navegantes, em Aracaju. Mas sem toda aquela pompa e glória. Todos vislumbravam algo, olhavam para o mesmo lugar: janelas no terceiro andar - é o que parece. Um prédio antigo, mofado, bem de esquina, lembra muito os casos contados por Hiroito, em Boca do Lixo. Os repórteres tagarelavam, tentando entender o que acontecia naquele lugar; um outro chegou a dizer que, possivelmente, eram membros do Estado Islâmico traçando um atentado para Brasília. Uma mulher chorava, bendizendo um dos vitrais quebrados do primeiro andar: "Veja! é Santa Madalena, encarnada, Eis o formato de sua exuberância naquela sombra da janela", dizia em prantos. O policial mais velho, tinha um bigodinho tingido de preto, já que seus cabelos eram todos cor de nuvem, em dia ensolarada de parque do Ibirapuera. Já estavam lá o pipoqueiro, o senhor português com um carrinho de batatas fritas e amendoins doces, a caixa de isopor acima do ombro do jovem que gritava: "Refrigerante, água, cerveja. Quem vai querer?". Até mesmo um traficante de drogas portava maconha, cocaína e crack para o comércio, confesso que o movimento em volta dele estava maior que o do tiozinho que vendia algodão doce. Alguém disse que o papa foi chamado, até o serviço secreto dos Estados Unidos da América estava infiltrado naquele local. Fiquei por alguns minutos, sem descobrir o que realmente estava acontecendo. Foi o dia em que São Paulo parou, sem motivos aparentes, sem que soubessem explicar o que iniciou o tumulto e nem o que o fez sessar três dias depois. Uma coisa é certa, meu notebook está na ativa novamente. Gosto de ir à Santa Efigênia.

domingo, 7 de maio de 2017

Feira de Itapetim

Numa quarta-feira ensolarada. Céu azul intenso. Poucas nuvens. Fomos à Itapetim. Dia de feira. Aquele burburinho. Os gritos dos feirantes.Moças à procura de olhares e sorrisos levam seu batom na boca e um vestido dois números abaixo do ideal. Senhoras com seu carrinho de compra escolhendo verduras: "Não posso esquecer do umbu", disse uma senhorinha para ela mesma. Tudo fluía normalmente como em qualquer outro dia, porém um aglomerado de pessoas, próximo da praça, ao lado da igreja matriz, com algum nome de santo estampado na lateral da catedral. O caso foi o seguinte: um casal de senhores (chuto 45 anos) já estava saindo com suas compras em sacolas de náilon, quando, do nada, um cabra tocou no ombro da senhora e disse:
- Bora se deitar comigo?, sim, um olhar safado que a secava da cabeça aos pés.
- Oxi! Você tá louco? Olha meu marido aqui, do lado!!! respondeu ela, assustada.
- Não quero me deitar com seu marido, é contigo!, retrucou, desprovido de medo, o cabra.
Após 7 dias internado, o cabra saiu do coma da U.T.I. do hospital regional do Recife. 

domingo, 19 de março de 2017

A Livraria vomitou TS Eliot

Fui na livraria comprar um exemplar de bolso
Levei T. S. Eliot
Imaginando que a leitura pudesse ajudar
A esquecer de você
Porém, o efeito foi devastador:
Me apaixonei pelos versos,
Páginas que me sufocavam.

Hoje estou casado com a literatura,
Dela sou amante e feliz por isso.

***

Os discos empoeirados que não tenho mais
Os livros abandonados, fora de ordem,
Na velha estante (que não está comigo)
As poesias que escrevi para você
                     [em papel almaço,
Desbotam na lixeira que foi embora
                  [com nosso chih tzu,
             [já cego e cheio de tumores
Ficou apenas o céu estrelado, noite fria
Cigarro e uísque,
Na rua, transeuntes que me ignoram
Num canto sujo de uma calçada qualquer
Do centro da cidade.

terça-feira, 14 de março de 2017

Culto à Mãe Morte

Eu desejei a Morte,
Ela me ignorou.
Deu-me as costas por resposta
No máximo, apontou com seu indicador mórbido e
                                             [Sepulcral 
O caminho torto, vazio e cinza do desprezo.
Sonhei e, em minha inquietude, percebi a ignóbil destreza
                                                       [do nada.
Vi-me como o vento: existente, mas que não pode ser visto em sua                                                       [formosura
Onde a brisa de meu interior é inóspita e bruta.
Ninguém a quer sentir, nem mesmo meu âmago a quer.
A Mãe Morte apontou-me o caminho das trevas que habitam meu ser eternamente.

terça-feira, 7 de março de 2017

Eu poeta

Tenho que escrever ao menos duas poesias por dia,
Até fevereiro, quando meu livro de 
[coletâneas será publicado
Poderei dizer que sou poeta, 
Só assim declararei um sorriso falso
Vou a algum bar, pedirei uma cachaça de alambique
Na jukebox, uma seleção de José Augusto
Nesta data, poderei dizer que sou poeta 
E morrer feliz, mesmo que as dez cópias 
Não sejam lidas nem por meus filhos
Na lápide de meu túmulo estará escrito:
"aqui jaz o poeta que viveu para criar 60 poemas que não serão lidos"

Lambe-Lambe

No muro de um bar, um lambe-lambe com a foto do presidente
Uma frase de acusação de roubo ao país
No meu coração uma frase fincada na veia cava inferior dizia:
"Eu vou entupir este peito de saudades de você"

segunda-feira, 6 de março de 2017

A Felicidade

Era sábado à tarde,
No bar, um dia qualquer
Risadas ensandecidas
Garras batendo nos copos
Copos trincando os dentes
Amarelados pelo consumo de cigarros
Comprados no tamborete montado
Ao lado da catedral de Santo Amaro

As putas remexendo seus quadris
Para os solitários do Largo Treze
O sábado à tarde de sol: reluzente e feliz
Ouvindo Dalton a tocar na vitrola
De um dos quartos perdidos no cortiço
Um cântico para o sol dormir
Que reluz a felicidade de um instante.

Sábado

Sábado pela manhã roguei aos céus
Para sua divindade secreta
Que a beleza deste dia não desapareça
Pedi encarecidamente que as nuvens
Metamorfoseassem-se em rosto de minha mãe:
Seu sorriso largo, a constelação que brilhava
Em seu olhar
Seus movimentos a esfregar roupas no tanque
Aquele lindo sorriso de mamãe
Em um belo sábado de verão

Supliquei a Deus que nunca levasse
O riso dela, sua alegria e dor
Ela a pendurar roupas no varal
Rodopiando comigo, embalado em seus braços
Firmes e quentes
O sábado de sol, de verão...
Não é nada além do sorriso de minha mãe

quarta-feira, 1 de março de 2017

A Nau Flutuante do Reino das Maravilhas

Em minha nau flutuante vejo os destroços
Em tons de cinza vegetativo fulgurando como moderno destino
Num vilarejo perdido em ilusões de oceanos floridos.
Na igreja depreda-se as sombras esquizofrênicas de pseudo-humanos
Reluz o negrume viscoso de suas almas fragmentadas
Rodeadas de palhaços de palha.
Todos riem deles, mesmo que não gesticulem, não se movam
Mesmo que saia de seus olhos artificiais
Vômitos de cores mortas.
Mesmo flutuando sobre as turvas águas salgadas
De desobediência à Rainha de Copas
Alice se compadece do chapeleiro assassinado
Seu sangue de névoa densa brota de seu sorriso torto
Sua boca é passagem secreta.
Mas não mais nos levará à ilha de minha infância cheia de sorrisos
[e caos
Desespero infantojuvenil.
A Alcova de minha felicidade assombrada na beleza original do chapéu
O Maluco não a pertence mais.
Assim como minha nau se derrete e caído acordo no vale mais escuso
De meus reais pesadelos.

Melancolia

Num dia de abrasivo céu azul
Debruçado sobre o papel amarelado pelo tempo
De minhas incompletas memórias
Curvou-se uma linda melancolia, de cores vivas
Pinceladas como as obras de Dali, Salvador
Aqueles segundos inventados fustigaram
Minha inacabada necessidade de silêncio
Com violento espanto, aquela aquarela destrutiva
pousara na velha matéria de celulose
Minha bebida aquietou-se e meu desassossego espiritual
Tornou-se louvores angelicais
Senti-me poeta de outrora mesmo que ilusão
A melancolia é bela e induz o poeta
A Transmutar-se em flor cativa,
Assim aquele sentimento lânguido repousa sobre mim.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Batida no portão

Um breu total, aquela escuridão só era amparada pela lua cheia, interrompida por nuvens cinza-triste.
Mãos no bolso.
- Cadê as chaves?
Três batidas no portão.
O arrepio subiu dos pés ao último fio de cabelo.
As mesmas três batidas, o mesmo ritmo que sempre utilizava quando este cenário recorria, no meu ombro, foram três toques terríveis, gelados e ninguém perto de mim.

Meu corpo

Eu vivo num corpo que não é meu
Enxergo a vitrine pútrida do shopping center
Consumo drogas criadas em laboratório do fast food
Tenho um emprego que me arranca as vísceras
Tenho uma vida que não é minha
Não vou aos botecos falar de futebol e das putas do Largo Treze de Maio
Não vou à padaria comprar cigarro solto e comer salame acompanhado de Velho Barreiro
Tenho uma igreja como família, e nela a poligamia imaginada
Me resta o batizado, num dia de domingo
Eu vivo num corpo que não é meu
Queria xingar palavrões funestos
Bater a porta do banheiro depois da masturbação
Minha vontade é de assistir Ninfomaníaca, mas somente novela das 6h é o que tenho
vontade de pegar meia dúzia de peças de roupa
Jogar numa mochila e dizer a todos “vão se foder“, mas
Eu vivo num corpo que não é meu.

Dia de azar

Hoje está parecendo que pisei em rastro de corno.

Um homem de meia idade

Estava parado na esquina de seu escritório: triste, melancólico, introspectivo.
Um carro em alta velocidade. Um movimento brusco. Um homem de meia idade morto à luz do dia.
Uma batida. Dois feridos. Um suicídio.

A glória Olímpica

A miséria humana foi jogada para debaixo do tapete, sobre ele, a TV nos mostra a glória olímpica.

Domingo Frio

Dia muito frio
Fernando Mendes na vitróla,
Velho Barreiro no copo,
Ela que não sai da mente,
Tipo chiclete mastigado até o açúcar desaparecer,
Mas ela não some, está sempre ali
Aqueles olhos mel de abelhas
Doce pra quem olha, mas destrutivo pra quem se apaixona
Cama vazia pela manhã,
Garrafa de Amarula vazia, largada perto da pia
O cheiro de sexo fresco, nunca se esvai
Um dia de domingo frio.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Na frente do bar

Só percebi a merda toda quando caí, bem na frente do bar. Vômito misturou-se com a sujeira. Senti o fedor humano após três dias sem saber o que é banho. Cabeça rodando. Vi que, com meus 40 anos, tudo não passou de vômito e sujeira.

Niilismo

Noite tosca, mas ficar em casa assistindo Four Some na TV, não! Faz dias que me demitiram, era uma merda de trampo. “Foda-se”, disse pra mim, me enganando. Preciso da porra de um emprego. Fui num boteco perto de casa, tomar uma, talvez comprar um baseado. Hoje igual a ontem, vi que minha vida é um ciclo de metódica sinfonia de niilismo.

domingo, 12 de junho de 2016

O Vento e o Piano

Não resisti ao frio,
Um vento gélido, suave e
Destrutivo.

Envolve-me em introspectivos
Pensamentos e angústias
Revejo a natureza...
Sua ingenuidade e pureza.

O vento sopra um som
Este ameniza a distância
Dos tempos,
Tempos eternos como o Universo
Em expansão.

A solidão brinca sobre o sangue
Gotejando
De corpos mutilados,

Torturados.

Suavidade que ecoa
Como uma sonata
Um pianista...
Instiga o destino...
A eternidade
De Bach.

O vento sopra as lembranças
De saudades,
Lembrei-me da inveja
Da malícia
Amor ao som do piano
Do vento.

Ode Contínua para Bombas, Piano e Metralhadoras

Suba as escadas escarlates,
Os degraus alérgicos,
Sangue degradado.

Rompi turvas lágrimas
Calafrios e respiração
[descontínua.

Ruas e becos assustadores,
horrores e lua cheia...
Uma bomba de dor
arranca a serena paz,
metralhadoras arraigadas.

Nuances de desespero,
piano ao fundo
Metralhadoras...
Chopin, Haydn...

Clarões trovejantes,
música desorientada...
Corpos arrancados, arte fúnebre...
Mortes.

Suba as escadas escarlates.

A Noite

À noite, escorre sob o céu, sereno
A névoa, que faz esvair o breu

No mar ondulante da (des)esperança
O suor que vibra no meu corpo
É motivo causado pelo ritmo do seu odor,
Alucinando Morpheus
Eu conto aos cantos escuros seus encantos
Ah! Doce lembrança de açúcar que deleita 

O suave gesto do seu sorriso
Que inclina meu ego e faz pousar a mariposa da solidão,
Quando distante...
Evapora de meus poros uma sublime e canção,
Os arcanjos voam ao redor de meu incrédulo espírito
Deturpa-me com teu fogo santo, brasas que consomem
Minhas vísceras,
Torturas-me quando sussurras hieróglifos retumbantes
Que dispersam em atômicos pensamentos surreais
Pelo infinito Universo (retrógrado)...
É a distância que se evapora numa tarde nublada e decadente
Que me faz chorar lágrimas de amor
Minha angústia se entrega
E algemada, padece, livre
Na estratosfera, delicadamente gritas:
- Meu lindo amor!
- Eu te adoro, Andreza de minhas fábulas,
Minha eternidade - respondo eu, jogando-me ao chão,
Soluçando cânticos de amor.
Tu sorris e me chamas:
- Vem, meu menino.

No Viaduto do Chá

(...)

Parou no viaduto, observou tudo, de vários ângulos. Jogou-se lá de cima, manchando o Vale do Anhangabaú.

As Colinas

As colinas encerram-me numa maré flutuante 
[de pequenos tormentos,
Estes, por sua vez, belos corpos a navegar por entre meu

[imaginário
As planícies escondem os segredos de minh'alma, esta porém,
Desabrocha a infelicidade cinza, escura e viscosa
O verde da relva não desmente meus gestos, 

Minha incredulidade
As nuvens me revelam a tristeza, 

Nesta deleito minha imortalidade.

Menina do Rio

Finge que dorme no leito do rio
Menina triste, esquizofrênica
Cai sobre sua alma o inquieto porvir
Molha seu lânguido sorriso, amarelo e desbotado

finge que dorme, ela, menina que é do rio

Mísera e vazia, como todos os outros...
Melancólicos, na beira do rio, ao som da floresta,

no brilho do luar
Sussurra ásperas poesias de lamentos, turvas
Como água lamacenta, poluída de rancor

Ela fingia um sono profundo, até regurgitar lágrimas
Apartada de vida, presa às águas, inerte ao acaso
Menina do rio, algoz de si mesma, presa em suas próprias [convicções
Em memórias de frio e terror

Sofrera após dormir, ali no rio morreu
Abandonada, em suas virtudes
Não tinha prazeres, somente pessoas que a olhavam viver... Menina linda de olhos avermelhados, 

Cabelos inquietos e magros braços a pedir...
Sussurrava com dentes pútridos, sorria o desespero de sua [enfermidade
morreu angustiada, a menina do rio,
E não mais finge seu sono eterno.

O Caminho

Eu vi o disco voador
Ele se elevou nas alturas,
Mostrou-me o caminho.
Uma estrada seca e quase morta,
Apontava para um vale cinza
Ciprestes brotavam como larva do chão


Esguio e astuto, voava o moço de grandes olhos
E riso estranho
Caminhava torto e bêbado
A alameda era agônica e fedida.
Vi o disco voador que me indicava o caminho


Triste vista do mar...
Eu não queria vê-lo
Era tempo de reflexão...


Eu melindrado
Subi as veredas para encontrar-me
Com Deus, Ele se esquivou
Me deixou no meio do passeio público
Então escorreguei nas ribanceiras da Avenida Atlântica
Me refugiei, entrelaçado e morto no alto de Andaluzia...

Um Olhar do Paraíso

Num instante vem o sopro de vida,
Um marear vívido,
Doce,
Existente.


Depois as cinzas como ciprestes em
Chamas.
Um olhar compenetrado... angustiante.
Do encontro enevoado e algoz,
Destrutivo, que ressoa como um canto fúnebre.


A Morte cega e voraz...
O esquecimento depois...
O momento de dor e reflexão.

O rio desprende-se, envolto às pedras,
E retoma seu caminho para o mar.

Tua Boca

Tua boca perpetuou-se em minh'alma
E dela me deliciei, senti o gosto de tua juventude.
Exprimi teu abraço na mais agônica verdade,
Depois arranquei de mim uma saudade mortífera.
Você deturpara minha ingenuidade,
Meus passos não lhe pertenciam, mas seguiram tua vaidade.
Viajastes com tua língua por toda minha intimidade.
Um sussurro acordou Morpheus...


Vi uma sombra, um vulto... 

Um adeus não dado,
Um sorriso não dito, 

Uma boca não lida.
Você, uma esperança de cadeiras de rodas,
 que se esvai, esvai...

As Cores do Céu

No céu as cores dançam,
Movimentos transcendentais...
Uma harmonia de proporções.

Um mistério sinfônico,
Uma pluralidade daliniana.


No céu, o frescor candente do Rei Sol, 

Imperador da Via Láctea.
Obra dos deuses? 

O acaso sorri nuvens na estratosfera.

O som das estrelas, acordando no bailar das cores do firmamento...
Em mais um crepúsculo,
Agora percebi a magia do surrealismo de Breton,
no imaginário de Hieronymus Bosch.


Existe algo lá fora,
Homérico, belo e baila 

Como o flutuar de arcanjos.

O Messias

O Messias no escuro estava
Não preencheu-se da luz, 

Mas velou-se de angústia,
Daquela mágoa em cores,
Aquarela.

Trepidou no caminho... caiu suor
- Velai por ti. Não sucumba
Na cruz - orei eu
Encheu-se de sofrimento, com a própria
Luz.

Queria teus cortes, tua
Labuta
- Tirai das trevas, da discórdia
A puta
Caiu de joelhos no meu sangue
Estanque.

Lágrimas do meu ódio.

O Messias no escuro estava
Nas ruas, na esquiva
Lá na esquina, sofreu tua mãe
Pedi ao rei Sol que socorrestes
Correstes...

Caiu traído, um beijo, um amigo
Antigo
A morte chegou: turva, esgoto, fedor
Odor, gosto amargo e solidão
O milagre do pão, alimento.

Fez do amor tua redenção
Tua prisão...
Calor, ofegante, quente
Crente do retorno... amor
Ódio, rancor, sem luz
Não acenda a vela.

Quis, depois, luz... levantou-se!
Por tua mãe, teus irmãos
Caia de joelhos, de novo... cansou
Alcançou tua liberdade
A verdade chegou
Em vida, não. Morte.

O Profeta

Passou o profeta a esvaecer
No sombrio gesto de seus braços,
Agonizou sua morte futura.
Escreveu num invólucro: "Acuda-me",
Mas não foi revestido de amor e atenção. 

Esquecido,
Louco pareceu às lombrigas infindas de sua
Ilusão.
O profeta se desfez em fragmentações
Anunciou sua morte
- Louco, ele era louco - diziam as pessoas
Vadiou o pobre homem, morrendo num sorriso solitário.
Atribulou-se sem companhia
Morreu. 

Findou-se o profeta.

Vagabundos Iluminados

Com passos largos, subidas íngremes,
Tropeço em degraus tortuosos, imperfeitos, deveras
Mas ainda assim intensos.
Vou com olhar aturdido, esvoaçante, incrédulo.
Caminho com o vento, ele me conduz...
 Mochila nas costas, calçando ceticismo, desassossego.
... tudo irá evaporar, mas seguirei os improvisos
Indiscretos, escuros e ermos campos de girassóis
No bolso carrego, e no coração, "Os Vagabundos Iluminados".
Na estrada, confuso de mim, impulsivo desastre solitário,
Atingindo o cimo de minha alegria.
No sorriso surrealista da obra de Bacon,
Um brilho no olhar...
A certeza de caminhar para o distante... 

Agonia



Se a intermitência fosse a sorte

Minha infância não seria tristeza
Eu seria pois vida e não morte
Um sorriso meigo, meu amor, riqueza
Mesmo que estivesse ainda morto
Voaria alto na imaginação
Das trevas esvoaçaria, corvo
Fúnebre, sei que não seria canção
Teria brinquedos e amor
A flor murcha atenuaria meu segredo
Não saberia de tortura e dor
Depois da solidão, você tomasse meu medo
Tácito sorriso alegre o teu
Meu amor corre fora e sobe
Nem as sombras do passado meu
Ao céu, soberano acorde
Trombetas anunciam meu fim
Música velha canto agora
Se distante, tu estás de mim
Saudade, melancolia vem na hora
Brilho do meu olhar que reflete
Frio esquizofrênico e algoz
Tua santa paz que remete
Rouco, estridente, é o fim de minha voz