sexta-feira, 15 de maio de 2026

Corpo Fechado




Eu sai foi da boca do sapo

Rasguei a costura e me pus a correr ladeira abaixo


Sou poeta coxo

Que trata o papel no rabisco

Sem borracha


A pinga arde ácida no estômago cheio é dos vermes

Querem corroer o que me resta

Corrói não

Aqui é exu brabo


Danço é no terreiro de mãe Pinha

Corpo fechado

Cravado com punhal do amor


O mal quer me enlaçar

Me enrabar

Mas sou duro na queda

Quantas vezes cai?


Quanto sangue a zunir

Feito pernilongo em noite de calor?

Tentam me frear

Mas sou opala comodoro acelerando


Não fico quieto quando me chamam para arrastar 

                                                           faca na Barão do Rio Branco

A peixeira sibilando som de trovão

Arrastando raios no asfalto

A chinela rasteja sorrateira pelos becos impávidos


Perdi 4 dentes

outros 7 cairão ao meu lado

Não tenho mesmo vergonha na cara


Não quero vala

Se tiver que acender vela e rezar

Lá estarei esticado em caixão de papelão


Mãe Sebastiana avisou do baculejo

Fez reza arruda vela e manto que diz é sagrado


Não arrego para a vida

Eu sou estrofe

Não nasci apenas para versos


E quero que me aqueça a alma no inverno

Que a vitrola chore valdick soriano


Eu só tremo quando a cachaça dissolve o fígado

Canto logo uma bonita canção de raul


Quem dirá que o véu da noite não é de marfim?

Um elefante triste saltando dos sonhos solitários


Lembro dos meus filhos sujos

Não tenho saudades

Não tenho vontades


Sigo o fluxo

Sigo macunaíma

sigo cantando frases da mente


Dizem que sou poeta

Nasci de metáforas e odes e seus lirismos


Quem me quer recitando o que quer que seja?

Quem quer ouvis o banguela falar de amor?


Esperança é para a estátua parada sem vida


Sigo a marcha

Morro hoje, mas belchior morreu ano passado


Vivo meu litro de amargura à noite


Deus é o agora

É meu respirar

Um copo de água dado na lanchonete


Eu saí da boca do sapo

Passei a perna na vida

Ou ela que me derrubou


Corri mesmo para não parar

Parar requer ajuste de pensamento


Sou poeta que fala

Sem poder respirar fuligem

Que não vê o silêncio fora das avenidas


Escrevo minha história

Com solavancos e impulsão por seguir nem que seja para parar de vez enquanto vejo o alvorecer de um anjo que me sorri olha nos meus olhos e fecha meus olhos que podem nunca mais se abrir




segunda-feira, 11 de maio de 2026

A ida



 

Diziam que meu tempo era vão

Que eu me aquietasse

Meu côro não era são

Que eu logo avoasse


Para o céu de passarim

Não seria mistério

O tal e bendito fim

Marcha rumo ao cemitério


"Tu verás todos os reinos"

Eu para o céu voaria?

Sem bombas e arrodeios

"Despede de tua Maria"


Acreditai em tal conversa

Não há o que vislumbrar

É seguir a estrada de terra

"Teu odre cheio estará"



O rádio-relógio




Ontem Jordana perdeu a vida. Matou-se. O enterro aconteceu hoje cedo. Foi uma cerimônia regada a surpresas, incompreensões daqueles que ali estavam. Quase todos vestidos de preto, inclusive eu. Na volta para casa, percebi uma árvore frutífera, dois tucanos alimentando-se. Pássaros diversos rodopiavam em torno da arvorezinha, como brincando, encantados com a natureza que resiste, eles sobrevoaram o meu carro, seguiram em frente, como que dizendo que eu deveria continuar meu trajeto. O céu não estava tão poluído, estava azulzinho, poucas nuvens flutuando na vastidão. Eu, emocionado, ri. Um riso descontraído, puro, como quando eu faria outrora, pequeno. Um menino na calçada notara minha espontaneidade e riu também, como se houvesse uma conexão entre nós, como se ele fosse a criança que fui há anos, como se minha alma projetasse aquela criança que Cristo disse que deveríamos seguir o exemplo. 


O dia findava-se, um crepúsculo pincelado com cores vivas, um vermelho- alaranjado displicente. Era como o cumprimento da noite que já chegava para cumprir seu destino. Mesmo assim, quase ninguém deu atenção. Eu também não daria, caso fosse um dia rotineiro, qualquer outro dia.

Já em casa, depois do banho: uma brisa leve fez carinho no meu rosto, enquanto tomava uma xícara de café fresco, debruçado no parapeito da varanda. Estrelas brilharam ainda mais, queriam terminar aquela obra-prima descrita anteriormente, as cores brincavam no quadro, mãos talentosas refazendo o mundo todo.

Cansado, dormi. Sonhei. Havia anos que não sonhava. Sorri dormindo, era um sorriso despretensioso, leve. Amanhã tenho que despertar cedinho. Deixei o rádio-relógio programado, ele foi um presente de Jornada, quando visitou um monge, amigo dela, em Ohio, ano retrasado.