eu desengavetei uma bronquite
há muito tempo guardada,
cheirando à naftalina
na gaveta de meias.
na noite passada, tomei o restante daquele vinho,
aquele que você comprou no réveillon.
finalmente o dente postiço veio ao chão
deixando um buraco aberto no meu peito mabo,
incomunicável.
as traças estão se organizando:
uma resistência digna de documentário na tv pública
- reivindicam minha saída,
como se eu fosse um deus invasor de terreiros,
sem aviso prévio.
teu beijo me demitiu
e teu riso solto ainda exala aquele perfume de flores
que eu te presenteava aos sábados,
sempre no fim do dia dos sábados
depois de comprar legumes na feira,
para o jantar.
na sexta-feira, fui àquela exposição da nina
que você comentou outro dia,
na sala de cinema.
ainda passa um filme nas paredes da sala,
aquele em que você beija meu pescoço e
diz baixinho que sou o soneto que leu num livro
e anotou na sua agenda de telefones.
hoje, tua voz é aquela linha desativada
pela operadora de telefone
e o apagar das luzes no domingo pela manhã
retoma aquele céu azul que eu odeio
ver brilhar no teu rosto sincero.
o tique-taque do tempo sopra nuvens cinzas
todos os dias.
as roupas velhas ainda me servem
e vestem muito bem.
os sussurros que ouço todo dia
quando desperto e quando grita
o despertador que você me deu
na volta da viagem para a espanha
e vi o soneto, riscado
na agenda de telefones.
mgs


