domingo, 31 de dezembro de 2017

1.

Bate contra o muro, pichado com a frase "escorra suas lágrimas na privada mais próximo, sentimento é merda seca e fedida", o veículo de minha angústia, sem cinto de segurança, é arremessada para além das ermas ruelas sombrias do Jardim Iporanga
Atravessa a alma, o sangue já desnutrido de exuberância, descarrilou o braço pedindo um último aceno de seus olhos inchados de ingratidão

Cidade Natal

O crepúsculo é belicoso,
Como o cogumelo atômico
Sufocante harmonia, um deus
A dança dos tons misturando-se
Vermelho-alaranjado,
Até o sol fechar os olhos...
Na estrada, o cinza chumbo
Predominante até deitar-se no
             [tímido horizonte
                  [de Brejinho
O ar puro de cidade do interior
Sopra pungentes risos altivos
Até tocarem terra seca
As lágrimas que caem das
                 [nuvens-sombra
Metamorfose verde-escuro
No semblante de minha
                  [cidade natal

Margaret Keane

Seus olhos são obras de Margaret Keane
Vejo-os faiscar estrelas do mar
Toda mentira torna-se poemas incrustados
Em cavernas afundadas no vale dos ossos
Neles há solidão, como remédio genérico vencido
Os acordes de sua pupila dilatada
Reluzem uma tocata de Bach

Esta distância é muro alemão:
Só a liberdade de nosso afeto pode derribar
E mesmo assim profetizei destruição:
No horizonte petrificado e cinza de seu coração
Fumando narguilé e vendendo tóxico à burguesia
Destituir-se-ia de transcendentalismo e compaixão

Seus olhos agora são sapos esmagados
Quando tentavam atravessar as estradas de Pernambuco
Um destino incerto após dia de chuva
Sua brevidade escandaliza meu agônico prazer
Privando-nos de lucidez anárquica
Incendiando-nos de putrefações do coração
E a cura se chegará no botequim das ilusões
Pálidos olhos negros e mortos
Minha tendência é a sombra
Minha vida já não é, porque teus
Olhos de Margaret Keane, já não são

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

N. 9

                                                  [Perfume de gardênia]
Dia de sol a pino
Suor escorre de meus olhos
Não, nada de lágrimas

Teu perfume de gardênia
Cheiro de amor em todos os cantos
Nos móveis dados por sua mãe
Nas prateleiras dos armários velhos
Teus olhares sorridentes impregnaram na porta da sala

Ah, como o sofá verde lembra-me teu colo
Quando deitava menino
Aguardando delicados dedos a acariciar meus cabelos

Sonhava felicidade eterna, um arco-íris irradiando a janela da cozinha
Mas vejo agora sua ira, 
Em cada canto :
Cigarros, cinzas... por todo lado da casa

O perfume de gardênia já não tem odor
Fora trocado por uma garrafa de cachaça,
Produzida em Morretes, terra do barreado
Comprei três no mercado municipal

Cada gole dedicado às noites de teus cachos
Tuas novelas, que eu adorava capturar
Como borboletas, em teu lindo rosto pálido

Tu foste embora, levou teu cheiro
Hoje choro ramos de gardênia,
Choro sangue pobre, ralinho...

Bebo por você, meu amor
Bebo pela morte,
Bebo com a solidão entrincheirada em teus afagos
Longínquos afagos
Bebo ao cantor da música mais triste que ouvi
Bebo a Waldick Soriano
A Paulo Sergio
Ao programa do Bolinha que víamos abraçados
Neste verde sofá
Que já teve sua alma presa, em segredo

Bebo porque o céu te sequestrou
E não pediu-me resgate

Choro suor nos olhos, 
Lágrimas somente na alma
Cheiro de gardênia
Bebo, bebo por você.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

N. 8

Acordara às 15h, uma dor inabalável na fronte
Boca seca,
Como o mais mortal deserto do planeta,
Um sol acordara dentro de si
Tentara apagar seu fogo com rum barato
Casco vazio, igual Congresso Nacional
Em véspera de feriado

Na geladeira quase sem vida,
Somente cheiro de podre feijão
Na garrafa de cachaça mineira:
Teia de aranha
4 moscas prezas e mortas
Vítimas de perverso acaso

Dor desinteressante na cabeça
Puxou a cortina carmesim
Para o lado
Céu cambaleante
Pessoas na rua,
Caminham para todos os lados
Qualquer lugar
Ah, se fossem ao bar, a vida seria menos débil

Boca seca,
Parecendo areia sob escaldante sol,
Água morna espumando sal (sobre ela)
Levando-o para o místico e
Profundo mar
Para nunca mais voltar.

N. 7

Ah, Noite. Mãe do dia
Busca o leite para ele bebericar
O Sol se deita, cansado, A Noite...
Cobre-o com coberta de cosmos
E apaga-lhe a Luz

Ah, mãe noturna, enriquece o mundo com escuridão profética
Nem João fora capaz de lhe detalhar...
Sua figura apocalíptica é a beleza freudiana
Pincelada à exaustão pelos bigodes dalinianos

Diverte-nos após o crepúsculo,
Suas estrelas reveladas, refletem
Meu copo cheio de saudades
De coisas que não conheço

Os barulhos soturnos revelam os deliciosos pecados
De minha idolatrada ama
(noite adentro)

Eu bebo solidão com gelo retirado de meu peito
- Homenageemos a nossa mãe Noite
Seus místicos prazeres,
Seus mortais pecados!

Sua prostituição na carreira de minha cocaína
A sarjeta me alegra quando nela deito, triste
Vendo o raiar do Dia
E o tristonho Sol, levantando-se,
A escovar os dentes podres e falsos

Ele bate o ponto na máquina da agonia

E me põe aparelhos para respirar
Numa cama de hospital
Chamada rotina

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O elevador

Nice balançou a cabeça positivamente para o que sua visita falara. A chaleira apitou alto, como a maria-fumaça, avisando que está chegando na estação.
- Aceita chá? ela perguntou a alguém sentado na poltrona amarela, posta do lado do sofá azul marinho, de dois lugares.
- Claro! - devolveu com voz suave, de pernas cruzadas, curvara-se para a frente, afim de localizar Nice, na cozinha.
Quatro sachês: dois para cada xícara; água fervida, borbulhava até deslizar para os recipientes de porcelana branca, com delicados desenhos de um jardim real.
- Açúcar ou adoçante? indagou a anfitriã.
- Tomo puro mesmo - respondeu da sala, tragando um cigarro de filtro branco.
Nice voltou com uma bandeja equilibrando duas xícaras que sopravam fortemente a fumaça vivaz - que insistiu em não abandonar aqueles que estiveram consigo, quando surgiu na fervura, conectada àquele ambiente, viu-se em desespero, sendo expulsa do convívio familiar - perdendo-se no ar.
Sentou-se Nice. Olharam-se. Sorriram.Conversaram sobre temas diversos, coisas que tinham em comum: filosofia, arte, teatro, principalmente sobre o tema solidão. Gostavam de conversar, como se tudo mais não existisse. O tempo pairava ao lado, saboreando a conversa, os olhares, o movimento da boca, os gestos.
- Preciso ir. Vou buscar minha avó, ela ficará com mamãe este fim de semana. Elas se adoram - completou a visita.
- Tudo bem - respondeu Nice - espero te ver novamente, um dia..., engasgou, segurando a porta.
Um beijo. Um toque leve de lábios. Sorrisos pálidos. Olhares perdidos.
- Então adeus - disse Nice, recebendo um abraço forte como resposta.
Lágrimas.
O elevador chegou, abriu a porta, ordenando que a visita fosse logo embora.
- Verônica?!?! gritou Nice, na esperança do elevador se compadecer e não seguir seu destino. 
Um fechar eterno. Sem volta.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

N. 5

Orei para os deuses,
para aqueles que pudessem estar de plantão
no momento de minha prece
mesmo de cara fechada,
por trabalhar no feriado nacional,
mas que deveria realizar os pedidos mais sinceros
e profundos de moribundos como eu
a senha deveria ser de um número quase infinito
ou minha oração de nada serviu
ou ainda aquele deus estava em pausa para ir ao banheiro
e não escutou-me naquele momento
liguei pedindo a gravação de minha chamada, se é que é possível
mas quero registrar minha indignação
por não ter sido atendido em momento tão íntimo
e de sensível desespero.

N. 4

Eu não quis ir às festas.


Interação social inexistente, desenvolve-me fobia
Prefiro ver a praça suja, do meu quarto sujo

Meu rádio tocando canções natalinas: narrando felicidades enjoativas

Eu não quis ir às festas.


E ela me deixou, no dia 24/12

Comprei tinta escura e borrei todo amor que tinha na colorida parede do meu peito
Nem Van Gogh sentira tanta angústia.

Comprei livros e os queimei, todos de autoajuda
(Aquilo tudo queimava...)

Eu não quis ir às festas.


A solidão fede à comida podre - na pia da cozinha
Comprei cerveja de péssimo gosto, joguei para os gatos, eles não beberam
Não atendi o telefonema de mamãe
(ela me deixa entediado)

Escrevo cartas, rasgo-as em seguida
Gosto do rato de longo rabo que mora comigo,
Dividimos mesma comida e as mesmas desgraças deste mundo

 Eu não quis ir às festas.


Sou abstrato ao ponto de amar além de mim
É um vício transcendental
Que esvazia meu querer a mim
E me faz odiar, além dos outros.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

N. 3

A carta é de despedida

Riscos horizontais - como as ondas do mar,
        Socam as rochas duras da praia,
duma ilha isolada
Letras trêmulas indicam sofrimento, talvez
Não:
não é a que explica suicídio

(Somos todos suicidas. Sim. Não vivemos, deveras)

Parte do texto está borrado. Choro. Manchando a tinta no papel

A carta é de despedida

Escrivaninha abaixo da claraboia - iluminada pela lua
Contexto esquizoide.
A despedida  - na carta - termina assim:

"Não o quero mais. As sombras de meu quarto me bastam. Você me fez perder 5 anos de uma vida que poderia ser linda...
Aquela cópia da chave, vou mantê-las no mesmo lugar, caso queira passar aqui qualquer dia."

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

N. 2

Eu peço misericórdia para minh'alma:
Não cumpri com a verdade, minha
Ah! E se dissimulei, como vil personagem
Afaste de mim a turbulenta face
[desses pedantes, que pisam - com sola
Esgotada - o límpido e destemido anfitrião:
Coração de pedra; de vidro

(pulsante carne e sangue)

Que perdoe-me 
Minh'alma: obedeci o que regurgitavam as 
         [más línguas, santas - religiosas
Perdoe-me por compactuar com o frio e degenerado
Inferno chamado humanidade.

N. 1

Sol baixo - fim de tarde
As sombras estendem-se 
       [no tapete do crepúsculo

Sou tomado por uma melancolia aguda
Que fura minha pele
Causando séria ferida, profunda

As flores - agora coloridas - 
Foram tingidas com toda delicadeza
Cores puras, vívidas

Escorriam do quadro, suas raízes - fundas
Fincadas na carne de minhas desilusões
Representação máxima de minhas insônias.

sábado, 4 de novembro de 2017

A Carta

Na quarta-feira, primeira de novembro, eu estava arrumando meu escritório, afinal lá é o meu gabinete, meu trono, é onde consigo criar, escrever, tresler tudo o que a fantasia pode me proporcionar. Acabei encontrando uma caixinha antiga, nela eu guardei várias recordações, dentre elas, algumas fotos do orfanato que fez parte de minha história; de minha juventude. Encontrei uma folha de caderno, era uma carta, feita à caneta - vermelha. A letra era inconfundível: Paulo Wagner - meu grande amigo - ele a escreveu. Realmente não me lembrava desta confabulação. "Faz tantos anos que não o vejo. Perdeu-se em sua genial mente", pensei. Me disseram que ele está em tratamento para recuperar seu raciocínio, ficou perdido em algum lugar de sua subconsciência. Até porquê era uma pessoa acima do normal. Ah, se sua capacidade de raciocínio tivesse sido desbravada como numa aventura dos grandes livros...

A carta dizia o seguinte:

Eis pecaminosa, oh carne! - graças, somente ocorre a putrefação do corpo, a carne injuriosa e pecadora - não o espírito... O espiritual, a alma e tudo o que a cerca de escuridão, de mistério que encanta, amedronta e nos fascina com seu indecifrável universo obscuro, mas puro, santo, intocado pelos pecados e vaidades nossas, demasiados e pecaminosos seres humanos.
Eu já fui você e você agora será PW. Dê-se ao desfrute de uma saudável, alucinógena, louca tentação. Não estais ostentando a bigamia, pois ainda sois livre, por ambas as partes. Por que não? Nem tentara ainda e afirmas que não dará certo? Detesto pessimismos! Sabes bem disto. Sabes também que nenhuma estrutura sólida pode ser erguida sobre uma superfície líquida. Não se faça de tolo. Eis culto orador metafórico, eloquente em forma de linhas. Não és demasiado. Surpreende-me ouvir de ti: "Não presto!", "Todos são mais cultos do que eu!" Equivoca-se em pensar desta forma. Tendo aprendido, com as horas, que a melhor resposta é a que não se dá. Não irei, infelizmente, meu caríssimo amigo, persuadi-lo no que deva ou não fazer de seu mundo pedagógico. Sempre que eu, Lúcio Escatallena, lhe enviar algum manuscrito, procurarei ser o mais simples possível, escrevendo com cumplicidade, ainda que confusa, mas o mais leal e verdadeiro possível! Termino assim meus escritos, lhe desejando pensamentos emotivos e impulsivos, mas com um tanto de consciência. Deixe-se levar, esqueça por hora o lado racional, da razão que muitas vezes lhe atrapalham.

Do seu devotado amigo, Paulo.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Rumo ao sol nascente

Ela saiu do Largo do Arouche, às 3h30 da manhã de sábado. Um bafo de estação Vila Olímpia, da CPTM. Seu vestido estava menos sujo que o morto Rio Pinheiros, mas indicava com dedo indicador, ossudo e longo, que não estava tudo bem. Quase bêbada, sem ter aonde ir. Sentou-se no banco do ponto de ônibus. Aonde vais? Não sabia. Lágrimas de dissabor, desespero. Pensamentos desencontrados, trombavam nas nuvens carregadas de seu coração tristonho. "O que eu faço agora?", pensou. Nenhuma solução. Andou por mais de 23 quadras, sentido zona sul. Exausta. Caiu na calçada, ralou joelhos e braços. Poucos carros arriscavam-se naquela madrugada. Nenhuma pessoa na rua, naquele momento. Frio de 12 graus centígrados corroíam sua pele pálida e seca. Com o rosto entre suas pernas, as lágrimas fazendo carinho em seu rosto, deformado pela maquiagem não retocada. Uma sombra parou do seu lado. Ela ergueu a cabeça. Era um homem vestido de palhaço. Ele tirou três bolinhas coloridas do bolso de seu casaco alaranjado. Fez malabares por alguns segundos. Olhou pra ela e sorriu. Partiu o heroico palhaço, adentrou uma rua escura, após virar a esquina daquela avenida. Ela se levantou. Secou as lágrimas. Com os sapatos de salto ponta de agulha em riste, andou rumo ao sol nascente.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O cara acha que pode viver de poesia até que o escritório de cobrança, contratado pelo itau, liga pra cobrar a dívida e dizer que se não pagar sua alma vai a leilão.

sábado, 14 de outubro de 2017

Emily D.

O primeiro caixão sob a terra úmida,
Coberta com flores mortas, no romper do dia
Foi um raio cortando o céu bêbado,
Nuvens carregadas...
Eram carpideiras, chorando gotas frescas
Tudo se refaz...
O ingazeiro faz seu desjejum
Com pitadas de sonolência matinal

O trovão: altivo, forte e decisivo
Verteu suas lágrimas,
Depois do último sussurro indefinido de mamãe
Jazia sob o véu sombrio de sua inquietante confidente

O terceiro sepulcro elevou temores no Olimpo
O campo vívido - de cristal cintilante... angelical
Era Emily D., tecida com  divina tinta,
Nos jornais de Boston...
A poesia perdera uma de suas poucas canetas:
Doce, ressequida e enclausurada
Na alcova de alva literatura.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

No sopé do monte mais sombrio

No dia 25 de junho de 1918, 
nevou em São Paulo. 
Um dia esquisito. 
Era transmutação. 
Oswald de Andrade agasalhou-se. 
Mário de Andrade tomou chá de camomila. 
Anita Malfatti dormiu até às 9h30.
Há dias que o frio de seu coração faz nevar nas ruas glaciais,
do sopé do monte mais sombrio e indivisível de meu querer. 
Mesmo com árvores milenares queimando na lareira da solidão, 
teu olhar alvo cai na do telhado frágil de minha alma, 
num amanhecer preguiçoso, 
débil, 
com sol tímido e apaixonado, 
apontando para o horizonte.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Funeral

O fone de ouvido tocando uma seleção musical de Fernando Mendes. Cama bagunçada há 18 dias, 3 horas e uma vida inteira passando na avenida do meu peito.
Você puxou meu tédio e o apontou para minha ânsia de felicidade. Rasgou todo sonho de cumplicidade que pairava na devoção que tinha de seu jeitinho santo.
Não senti falta da literatura, que me obrigou a abandonar como um cachorro que já não servia para preencher algum espaço, no quintal de alguém. Usei roupa social e fui trabalhar no escritório sombrio, frio (como um palhaço já cansado de sofrer por dentro, no peito cicatrizado por alguma angústia que nunca passa), do seu amigo Alfredo. Aguentei, calado e sorridente, todos os seus amigos, que mais pareciam intervalo de programa de domingo à tarde. Devotei tua maldita religião, na esperança de que seu deus pudesse manter você ao meu lado.
Doei meus livros de poesia para abrigar sua autoajuda, na estante do corredor.
Agora eu assisto os minutos derradeiros de um perdão não dado, de silêncio eterno, após tua doce voz me dizer que "vagabundo não se endireita", "volte a vomitar vodca tosca, numa rua qualquer da zona sul", "Tentei te endireitar, tentei!".
Me levou para seu abismo escuro, sepulcral. Um muro cinza, sem frases de um coração partido.
Tirei a gravata... me deixei cair infinitamente sobre o lençol cheirando a sexo, como uma despedida... um funeral triste, sem volta.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Ceia de Natal

Gosto de ler o que escrevem alguns contemporâneos: escrita sagaz, com orquestra sinfônica saltando de suas canetas. Eles sempre publicam em revistas famigeradas, daquelas com placa luminosa; são magazines impressos ou online, que chamam a atenção nas redes sociais.
Eu sempre quis ser publicado também, na minha opinião meus textos eram bons (a confirmação veio depois).
Peguei minha canoa e fui navegar nas margens escuras e densas da literatura. Nenhuma publicação, nenhum retorno cretino, daqueles com nariz de Pinóquio, dizendo que meus textos eram bons, porém não se enquadravam no perfil da revista. Na verdade só publicam de gente de renome, já na praça.
Imaginei que meus poemas, meus contos eram comida estragada, nem gatos de rua tentariam revira-los para saciar a fome.
Anos mais tarde, depois de muito soco na cara e chute na boca do estômago, consegui ser publicado por uma editora bacana, meus livros venderam além do planejado, era conhecido pela meia dúzia de nego que era do métier. Hoje consigo comprar queijo e pinga portuguesa, os direitos autorais nunca me farão classe média, mas pago meu aluguel e vou ao cinema duas vezes no mês.
Hoje estas mesmas revistas atraentes se afogam no desespero para obter textos meus. Eu poderia até ignorar, nunca retornar os e-mails, nunca retornar os telefonemas, as chamadas no messenger, mas não o faço, prefiro jogar lavagem aos porcos, assim garanto a ceia de natal.

O Volks preto

Era tarde de sábado, quente pra caralho, me senti como a batata na sopa da vó Ana, aquilo borbulha feito a imagem que tenho do inferno, daquele bíblico.
- Bom dia! - disse ao vizinho que retribuiu com um aceno cansado. Depois que a esposa morreu de câncer de mama, ele aguarda ansiosamente Mictlantecuhtli
O sol já era poente, dava pra ver a bola de fogo esticando o lençol na cama, já de pijama e dentes escovados.
A praça estava abarrotada de crianças e adolescentes: jogando futebol na quadra, empinando pipa; um grupinho brincava de pega-pega, outro de esconder. Adultos conversavam e bebiam cerveja no bar, enquanto uma dupla ria vitoriosa por ganhar no dominó.
Eu estava indo na casa do Zeca, lá tem ar condicionado, o pai dele comprou por ter seu escritório na parte da frente da casa, aproveitou e incluiu outros cômodos no pacote. Já estava na subida da rua, quando notei um Volks preto descendo do outro lado da praça, numa velocidade, ao menos, 5 vezes acima da que era permitida ali na vila. Alguns que estavam na praça correram, o medo nos salva de muitas enrascadas; outros não viram. Eu ainda tentei alertar aqueles que estavam no caminho do veículo. Uma freada brusca, o Volks desviou ainda de duas pessoas que tentavam correr. Uma menina, de uns 12 ou 13 anos ficou entre o carro destruído e a árvore que o parou com sua força desproporcional. O motorista ensanguentado desceu do veículo zigue-zagueando, bêbado. Mãos na cabeça, ele gritou desesperadamente.
Três dias depois o motorista do Volks preto falecera no hospital Grajaú. Não resistiu aos ferimentos desferidos por várias pessoas que viram toda a cena. No jornal da banca, no dia seguinte à tragédia, li que o condutor do Volks acabara de perder a filha, atropelada por um motorista que ingeriu muita bebida alcoólica que dirigia um Volks preto.

domingo, 24 de setembro de 2017

Rio Moldava

As gotas d'água deslizam do lado de fora da janela, da sala
Num canto escuro da cozinha, sobras de doce de mamão,
Levadas por formiguinhas
O chiado ribomba na saída de som do rádio relógio, quebrado e colorido
O ferro de passar, cinza de tristeza lânguida, indelével

- Enquanto você se afoga nas retinas enfurecidas, num brilho azul esverdeado.

O sol intumescido: fuma um charuto, produzido em Singapura
Teu sorriso amarela as páginas de meu livro de cabeceira
Minha poesia grita sobras do almoço de quinta-feira
Kafka ecoou, sobre a ponte que rasga o rio Moldava
Sua sombra flutua sobre os antigos prédios da capital

- O que sobrou de ti dança ao som dos horrores de Mossul.
- Trincas meu coração aturdido, sob o horizonte intenso de uma vida sem memória.

sábado, 16 de setembro de 2017

Rum cubano

O quadro torto, quase caindo da parede,
O relógio velho já não faz tic tac,
A casca seca, no canto escuro, atrás do rack,
         [simbolizando o que já foi uma barata,
                       [assassinada pelo tédio,
O litro quebrado de rum cubano (que não
    [tomei), seus cacos ainda em cima da pia,
O cinzeiro com cigarros amassados, nunca
                                       [acesos,
O revólver na gaveta de meias, sem
          [munição, enferrujando minha memória,
Meus cabelos brancos insistem em manter
              [minha cara ainda mais decrépita,
Os dentes amarelados pelos cafés de uma
           [vida inteira de insônias e agonias,
              [transcendem o fígado calejado de                                                     [cachaça barato.

As feridas corroem o pé esquerdo:
- Maldita diabetes!
Os vermes alimentam-se das sobras de
            [comida deixadas na panela queimada,
               [em cima do fogão fragmentado-se
                                  [em ferrugem,
O cheiro forte do gás, ligado pelo demônio
                      [em minh'alma, já absorve
                 [o que me sobrou de raciocínio
O corpo enfraquece.

Um sorriso manchando interrogações,
Uma última música toca no amargo peito:

     "(...) Mas não tem revolta não
     Eu só quero que você se encontre
     Ter saudade até que é bom
     É melhor que caminhar vazio (...)"

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Utopia

Sorrateiro, se arrasta nos becos lúgubres
Insurgente, conta passos de trevas nas varandas
              [de casas rangendo dores crônicas
Atônito, não enxerga o peito em chamas
                                      [e sangue
Ah! O estrago da demência sombria
Campos de trigo morto, caído sob a relva
A catástrofe profetizada no pergaminho
                         [da biblioteca secreta
Casto, não compadece de suas privações
Dúbio, chora desespero e raiva flui de seus
                [lábios destituídos de sorrisos
A fome de morte devora as vísceras
A lua reflete suas fraquezas, destrutivas e vãs
Ah, se o silêncio o levasse para terras planas
Se o sal da terra lhe tirasse o fel impregnado
Se o vapor que sobe dos pântanos de sua
alma fossem céu encoberto de tristeza
                           [mas tristeza branda
Veria risos e sentimentos límpidos
               [com peixes a navegar sob sonhos
                                     [invernais
Lá seria sua eternidade sem sombra
                          [sem dúvida, sem ódio


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Área VIP

Da área vip da Terra vejo a destruição e desespero do homem. Deus deu as costas, a Natureza prestes a vomitar detritos de ganância e gritos de horror.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Volve-se sobre as coxas grossas
Daquele delirante sorriso triturador
No cabaré as risadas são
mais altas que dose de absinto
Os suores, os cheiros ofegantes
Olhos pecaminosos rosnando

O mundo é pecado, assim sendo
Pecadores sois
O leito enterrado nos seios de pitombas
O beijo esquecido, no refúgio da baraúna
                    [sítio de tio Miguel
As línguas salpicando os batimentos
                              [cardíacos
A poesia renascendo com Rá, num dia
                  [de orvalho a abençoar
                         [e resplandecer
No finito de um instante


O Poeta

O poeta canta sonhos em versos
Sua face afaga umbuzeiros
Esta cantoria inflama as chagas do querer
O terço à mão para o refúgio noturno
O véu da senhorinha, ajoelhada...
Santuário

Ah! o poeta solitário refaz o caminho de Cristo
Seu martírio...
Viola em riste, aponta para o infinito
O poeta é tempo,
É vento,
É sombra,
É água em dia de sol quente.

Boina francesa lilás

Ela estava sentada, olhando no espelho de seu toucador vitoriano, de uma cor verde, gasta pelo tempo, herança de sua mãe. "Como os anos passaram tão rapidamente? Minhas rugas...", uma lágrima escorreu, borrando a maquiagem pesada que Vera, com tanto cuidado e demora, construiu para esconder seu rosto marcado pelo tempo. Morou por muitos anos naquele pequeno apartamento. Nunca trocou o papel de parede verde-azulado e marrom rosado, organizados verticalmente, com botões de rosas brancas que mais pareciam mortas, perderam a beleza de décadas atrás e deixavam a decoração do papel ainda mais decrépita. Colocou a boina francesa lilás, queria combinar com a cor dos cabelos mal tingidos de preto. Cachecol de cores vivas, o vermelho sangue destacando-se das demais. Olhou novamente para o espelho, de soslaio. Respirou fundo. Fez um gesto de desagrado. Fora até o fogão, acendeu um Carlton com o único palito de fósforo ainda não queimado. Abriu a janela. Era noite muito fria, porém o movimento era intenso, lá embaixo. "Como eles conseguem?", pensou.  "Parecem tão felizes", sussurrou. Fez-se silêncio em sua cabeça, um vácuo, por alguns segundos. Raramente o silêncio lhe fazia companhia, único amigo naqueles 70 anos.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

sintomas de um querer inebriante

é viagem de última hora
em ônibus clandestino
é comprar boneca barbie falsificada
para as meninas do orfanato perto do trabalho
é dirigir olhando para as mensagens do celular
xingando o guarda que vê a imprudência e multa
é rir com o tédio por dentro
quando entra cliente e você nem deveria se levantar
naquela manhã anêmica
é apostar na loteria com aqueles 50 reais
que completam a condução do mês

virar o copo
a espuma da cerveja dissolvendo na garganta
sorrir à uma liberdade falsa
encontrada no olhar da garçonete
esquecer-se sóbrio
fica-se desorientado: vodca
o choro ao olhar-se só
no banheiro, pela manhã
amar amarga
a rotina transborda bilhetes
desiludidos de adeus
daquele amor que não voltará
que nunca foi amor


terça-feira, 13 de junho de 2017

Sábado de Outono

Na vida acontecem coisas muito estranhas, vemos situações que mais parecem um quebra cabeças sem solução, como o que ocorreu sábado passado, quando aguardava minha namorada, sentado em um dos bancos de cimento da praça Oswaldo Cruz, bem de frente para o Shopping Páteo Paulista. Uma manhã fria, apesar do sol reluzir toda a sua glória de estrela e sustentáculo do nosso sistema solar. Aquele movimento habitual de pessoas diferentes com o mesmo ideal: continuar vivas, ao menos a maioria. Assentou-se no banco à minha frente, um rapaz alto, cabelos sedosos, como de comercial de shampoo nos intervalos de novela do canal 7. Suas vestes estavam manchadas de - ao meu ver leigo - sangue. Muito sangue. Sua roupa era escura, mas a camiseta de algodão branco denunciava aquela cor enrubescida. Ele abriu a mochila, pegou lenços, muitos lenços e os encharcara, reduzindo aquele exagero rubi espalhado pelas roupas, como tinta atirada de qualquer forma num quadro, por algum pintor fracassado. Retirou o excesso. Mas percebeu que, mesmo assim, não conseguira disfarçar aquela alegoria carnavalesca, que chama a atenção do público nas arquibancadas do Anhembi. Abriu novamente a mochila: uma blusa foi retirada dela. O rapaz - rapidamente - enrolara numa sacola as roupas denunciantes de alguma ação de faroeste estadunidense. Uma bermuda já por baixo da calça e a blusa de ginástica, que retirou da bolsa, transformaram-no em atléta de maratona. As roupas incriminatórias, enroladas em saco preto foram arremessadas na lata de lixo. Ele colocou novamente a mochila nos ombros e correu sorrateiro para a Avenida Paulista. Depois de 30 minutos de atraso, Daniela chegou e pudemos curtir o nosso sábado outonal.

Rua Santa Efigênia

Naquele sábado eu estava decidido a sair, era hora de trocar a placa-mãe do meu velho notebook, era ruinzinho, coitado, mas me deu muitas alegrias, muitos poemas criamos juntos, só nós dois. Resolvi ir até a Santa Efigênia, lá no centro, uma viagem longa pra quem é da periferia. Gosto de andar naquelas bandas da cidade, muitos prédios antigos, cheios de histórias pra contar. Vi uma movimentação grande de pessoas, quando passando pela Avenida Rio Branco. Muitos viaturas policiais. Jornalistas. Veículos de várias emissoras de tv, com suas antenas erguidas, quase em sinal de louvor, apontadas para o firmamento. Perguntei o que estava acontecendo a um senhor que lá estava, olhando para o último dos quatro andares do edifício. "Não sei", disse ele, hipnotizado. Parecia uma procissão da festa de Bom Jesus dos Navegantes, em Aracaju. Mas sem toda aquela pompa e glória. Todos vislumbravam algo, olhavam para o mesmo lugar: janelas no terceiro andar - é o que parece. Um prédio antigo, mofado, bem de esquina, lembra muito os casos contados por Hiroito, em Boca do Lixo. Os repórteres tagarelavam, tentando entender o que acontecia naquele lugar; um outro chegou a dizer que, possivelmente, eram membros do Estado Islâmico traçando um atentado para Brasília. Uma mulher chorava, bendizendo um dos vitrais quebrados do primeiro andar: "Veja! é Santa Madalena, encarnada, Eis o formato de sua exuberância naquela sombra da janela", dizia em prantos. O policial mais velho, tinha um bigodinho tingido de preto, já que seus cabelos eram todos cor de nuvem, em dia ensolarada de parque do Ibirapuera. Já estavam lá o pipoqueiro, o senhor português com um carrinho de batatas fritas e amendoins doces, a caixa de isopor acima do ombro do jovem que gritava: "Refrigerante, água, cerveja. Quem vai querer?". Até mesmo um traficante de drogas portava maconha, cocaína e crack para o comércio, confesso que o movimento em volta dele estava maior que o do tiozinho que vendia algodão doce. Alguém disse que o papa foi chamado, até o serviço secreto dos Estados Unidos da América estava infiltrado naquele local. Fiquei por alguns minutos, sem descobrir o que realmente estava acontecendo. Foi o dia em que São Paulo parou, sem motivos aparentes, sem que soubessem explicar o que iniciou o tumulto e nem o que o fez sessar três dias depois. Uma coisa é certa, meu notebook está na ativa novamente. Gosto de ir à Santa Efigênia.

domingo, 7 de maio de 2017

Cidade Cimento

Rua Principal vazia, nem ratos a correr como fugitivos
Nas sombras dos esgotos a céu aberto
A chuva escorre nos vitrais das casas como a mão da vítima,
Ensaguentada, 
Ao cair, 
Deixando a mancha vermelha na parede.

Nuvens chumbo, carregadas de tristeza, deixam cair sobre a cidade
Suas lágrimas, em canto fúnebre
São Paulo: ventre de solidão
Senti fome de mais querer, 
De encontrar,
De refletir
Suas olheiras e sorriso mortos.

Arranha-céus destrutivos, absorvem as angústias de uma multidão
Esquizofrênica
Zumbis perdidos em Sodoma
Asfalto que atravessa a sola dos pés
Arranha a alma,
Carregando nossos pensamentos para um mundo paralelo
É Matrix,
É a ferrugem no espírito,
É Jerusalém e Nabucodonosor.

O cinza que entope o peito 
E destitui o paraíso de nossos corações
São Paulo é uma prostituta no auge de sua angústia
Destino pecaminoso da vaidade
Do querer,
Da vontade
Cidade cimento, corvo da noite.

Feira de Itapetim

Numa quarta-feira ensolarada. Céu azul intenso. Poucas nuvens. Fomos à Itapetim. Dia de feira. Aquele burburinho. Os gritos dos feirantes.Moças à procura de olhares e sorrisos. Levam seu batom na boca e um vestido dois números abaixo do ideal. Senhoras com seu carrinho de compra escolhendo verduras: "Não posso esquecer do umbu", disse uma senhorinha para ela mesma. Tudo fluía normalmente como em qualquer outro dia, porém um aglomerado de pessoas, próximo da praça, ao lado da igreja matriz, com algum nome de santo estampado na lateral da catedral. O caso foi o seguinte: um casal de senhores (chuto 45 anos) já estava saindo com suas compras em sacolas de náilon, quando, do nada, um cabra tocou no ombro da senhora e disse:
- Bora se deitar comigo?, sim, um olhar safado que a secava da cabeça aos pés.
- Oxi! Você tá louco? Olha meu marido aqui, do lado!!! respondeu ela, assustada.
- Não quero me deitar com seu marido, é contigo!, retrucou, desprovido de medo, o cabra.
Após 7 dias internado, o cabra saiu do coma da U.T.I. do hospital regional do Recife. 

domingo, 19 de março de 2017

O circo

Não cri quando a levei ao circo
Duvidei que me abandonasse
Me deu as costas quando o palhaço
Imitando o Bozo, jogava rosas
Para a plateia

Não cri, me abandonou no circo
Disse que voltaria para o ex
Que trocaria a marca do cigarro,
Nunca gostou de Marlboro

Não cri quando disse que mudaria

               [de cidade com ele
Agora ia torcer para o fogão
Olhou nos meus olhos
Chorou e deu-me as costas
Foi embora com a alegria
Que sentia ao seu lado

Não cri, o Bozo terminou sua apresentação
E eu não pude rir de suas angústias.

A Livraria vomitou TS Eliot

Fui na livraria comprar um exemplar de bolso
Levei T. S. Eliot
Imaginando que a leitura pudesse ajudar
A esquecer de você
Porém, o efeito foi devastador:
Me apaixonei pelos versos,
Páginas que me sufocavam.

Hoje estou casado com a literatura,
Dela sou amante e feliz por isso.

***

Os discos empoeirados que não tenho mais
Os livros abandonados, fora de ordem,
Na velha estante (que não está comigo)
As poesias que escrevi para você
                     [em papel almaço,
Desbotam na lixeira que foi embora
                  [com nosso chih tzu,
             [já cego e cheio de tumores
Ficou apenas o céu estrelado, noite fria
Cigarro e uísque,
Na rua, transeuntes que me ignoram
Num canto sujo de uma calçada qualquer
Do centro da cidade.

terça-feira, 14 de março de 2017

Culto à Mãe Morte

Eu desejei a Morte,
Ela me ignorou.
Deu-me as costas por resposta
No máximo, apontou com seu indicador mórbido e
                                             [Sepulcral 
O caminho torto, vazio e cinza do desprezo.
Sonhei e, em minha inquietude, percebi a ignóbil destreza
                                                       [do nada.
Vi-me como o vento: existente, mas que não pode ser visto em sua                                                       [formosura
Onde a brisa de meu interior é inóspita e bruta.
Ninguém a quer sentir, nem mesmo meu âmago a quer.
A Mãe Morte apontou-me o caminho das trevas que habitam meu ser eternamente.

terça-feira, 7 de março de 2017

A despedida do profeta depois de vomitar palavras de amor

Os arcanjos choravam pétalas de falsos
                            [girassóis 
Enegrecidos pela fuligem oriunda de um 
Jovem bêbado que vomitava palavras de amor
Cenas de uma profecia celta,
Gravada nos tijolos de chaminés de fast food 
                     [estadunidense, de 1970
Os hieróglifos tingiram as masmorras 
                                [televisivas 
Incrustadas na testa do bestial
Inseto Gregor Samsa 
Os abutres blasfemam e confabulam frases 
                                   [místicas

Nas ruas estreitas do centro
Mártires bêbados trespassam os faróis 
Dos perdidos veículos

O cheiro elevava o enxofre das petrificadas 
Garrafas, do gramado da Praça da Sé
A coxa grossa e trôpega, caía na escusa
Boate do Vale do Anhangabaú 
Copérnico delirou com LSD, ao som de 
                              [Paulo Sérgio: 
“Meu filho, Deus que lhe proteja 
E onde quer que esteja, 
Eu rezo por você”

Logo no Arouche… nas noites de sexo, de 
                                      [Baco
A pútrida verdade desvia a conduta dos
                                 [botequins 
Impedindo as flâmulas de propagar
Das abelhas, seu nectar 
Nas caixolas dos temulentos do centro da
                                    [cidade