Eu sai foi da boca do sapo
Rasguei a costura e me pus a correr ladeira abaixo
Sou poeta coxo
Que trata o papel no rabisco
Sem borracha
A pinga arde ácida no estômago cheio é dos vermes
Querem corroer o que me resta
Corrói não
Aqui é exu brabo
Danço é no terreiro de mãe Pinha
Corpo fechado
Cravado com punhal do amor
O mal quer me enlaçar
Me enrabar
Mas sou duro na queda
Quantas vezes cai?
Quanto sangue a zunir
Feito pernilongo em noite de calor?
Tentam me frear
Mas sou opala comodoro acelerando
Não fico quieto quando me chamam para arrastar
faca na Barão do Rio Branco
A peixeira sibilando som de trovão
Arrastando raios no asfalto
A chinela rasteja sorrateira pelos becos impávidos
Perdi 4 dentes
outros 7 cairão ao meu lado
Não tenho mesmo vergonha na cara
Não quero vala
Se tiver que acender vela e rezar
Lá estarei esticado em caixão de papelão
Mãe Sebastiana avisou do baculejo
Fez reza arruda vela e manto que diz é sagrado
Não arrego para a vida
Eu sou estrofe
Não nasci apenas para versos
E quero que me aqueça a alma no inverno
Que a vitrola chore valdick soriano
Eu só tremo quando a cachaça dissolve o fígado
Canto logo uma bonita canção de raul
Quem dirá que o véu da noite não é de marfim?
Um elefante triste saltando dos sonhos solitários
Lembro dos meus filhos sujos
Não tenho saudades
Não tenho vontades
Sigo o fluxo
Sigo macunaíma
sigo cantando frases da mente
Dizem que sou poeta
Nasci de metáforas e odes e seus lirismos
Quem me quer recitando o que quer que seja?
Quem quer ouvis o banguela falar de amor?
Esperança é para a estátua parada sem vida
Sigo a marcha
Morro hoje, mas belchior morreu ano passado
Vivo meu litro de amargura à noite
Deus é o agora
É meu respirar
Um copo de água dado na lanchonete
Eu saí da boca do sapo
Passei a perna na vida
Ou ela que me derrubou
Corri mesmo para não parar
Parar requer ajuste de pensamento
Sou poeta que fala
Sem poder respirar fuligem
Que não vê o silêncio fora das avenidas
Escrevo minha história
Com solavancos e impulsão por seguir nem que seja para parar de vez enquanto vejo o alvorecer de um anjo que me sorri olha nos meus olhos e fecha meus olhos que podem nunca mais se abrir
