sábado, 11 de julho de 2026

agenda de telefones

eu desengavetei uma bronquite

há muito tempo guardada,

cheirando à naftalina

na gaveta de meias.


na noite passada, tomei o restante daquele vinho,

aquele que você comprou no réveillon.


finalmente o dente postiço veio ao chão

deixando um buraco aberto no meu peito mabo,

incomunicável.


as traças estão se organizando:

uma resistência digna de documentário na tv pública

- reivindicam minha saída,

como se eu fosse um deus invasor de terreiros,

sem aviso prévio.


teu beijo me demitiu

e teu riso solto ainda exala aquele perfume de flores

que eu te presenteava aos sábados,

sempre no fim do dia dos sábados

depois de comprar legumes na feira,

para o jantar.


na sexta-feira, fui àquela exposição da nina

que você comentou outro dia, 

na sala de cinema.


ainda passa um filme nas paredes da sala,

aquele em que você beija meu pescoço e 

diz baixinho que sou o soneto que leu num livro

e anotou na sua agenda de telefones.


hoje, tua voz é aquela linha desativada

pela operadora de telefone

e o apagar das luzes no domingo pela manhã

retoma aquele céu azul que eu odeio

ver brilhar no teu rosto sincero.


o tique-taque do tempo sopra nuvens cinzas

todos os dias.


as roupas velhas ainda me servem

e vestem muito bem.


os sussurros que ouço todo dia

quando desperto e quando grita

o despertador que você me deu

na volta da viagem para a espanha

e vi o soneto, riscado

na agenda de telefones.


mgs